Fatores de Influência na Autoimagem do Adolescente

O psicanalista italiano Contardo Calligaris (2000) assegura que existem duas qualidades subjetivas essenciais para se fazer valer na sociedade humana: ser desejável e invejável. O adolescente é alguém que aprendeu esses valores e agora almeja colocá-los em prática. Sente-se preparado, capaz disso e deseja fazer parte da sociedade. Contudo, nesse momento, a comunidade adulta não o autoriza a fazer parte dela e impõe uma moratória, ampliando o tempo de preparação para atividades comuns aos adultos.

Para crescer, o adolescente perde ou renuncia à segurança do amor que era garantido à criança. Busca o olhar do outro, na tentativa de se reconhecer, de descobrir como o veem, o que pode ser confirmado no tempo gasto em frente ao espelho ou nas redes sociais.  Essa insegurança sobre si mesmo e sobre como o percebem é marca própria da adolescência e demandará dele uma busca por satisfazer o adulto, e, assim, recuperar o amor perdido.

Essa não é uma tarefa fácil, pois os adultos assumem posturas e falas contraditórias, impelindo o adolescente a interpretar e a trazer à tona o desejo inconsciente, reprimido, escondido ou esquecido dos adultos. Considerados por muitos como ameaça à ordem e à paz, os adolescentes têm por finalidade fazer parte da comunidade adulta.

Ao perceber que as mudanças orgânicas não garantem, por si só, a inserção nessa comunidade, o adolescente é induzido a buscar condições sociais que asseguram o exercício do que julgam ser direito natural, independente da aprovação dos adultos. Desse modo, levarão em conta que sua comunidade é composta por seus pares, com quem compartilham as escolhas que consideram importantes.

Na constante busca pelo reconhecimento, o adolescente, ao ver seu pedido negado pela moratória imposta pelo adulto, rebela-se na tentativa de ser ouvido e inventa grupos em que possa trocar o que lhe foi recusado. Consegue o reconhecimento dos coetários e suscita a atenção dos adultos.

Desafiando a aprovação dos adultos e reafirmando o reconhecimento dos pares, o adolescente quebra o cânone da estética adulta ao mesmo tempo que revela o conflito entre a exibição de um erotismo, de desejabilidade e uma recusa à sexualidade. A moda, o estilo, o look cumpre uma função comunicativa de contestação dos valores que os adultos exibem e negam simultaneamente.

A música também constitui um importante componente de identificação. Seja pela poesia ou por seus representantes, as figuras que cantam e dançam são personagens que ainda procuram seus roteiros, perfeitas para que os adolescentes se identifiquem com elas, pois permitem adotar um gesto, um estilo, um look, sem com isso aceitar condições de uma vida já vivida, como na fala dos adultos.

Tornar-se adulto não consiste mais em promoção, pois, no fundo, o adolescente encontra naquela geração a admiração da liberdade desejada e reprimida; a felicidade que gostaria de ter / sentir; a suspensão das regras e responsabilidades; a satisfação imediata. Essa idealização não escapa aos adolescentes, que almejam ser reconhecidos como autores da própria história.

 

 

Manuela Barbosa

Psicopedagoga do Colégio Saber Viver

 

 

 

REFERÊNCIA

CALLIGARIS, C. A Adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000.

 



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