MÃE, QUE TÉDIO! O BENEFÍCIO DO ÓCIO NA VIDA DAS CRIANÇAS.

O mês de julho chegou e, com ele, as férias escolares. É nesse período que nós, pais, começamos a planejar o tempo de nossos filhos, dando ênfase a preenchê-lo para que não fiquem ociosos. Mas será que isso é realmente necessário? Há necessidade de uma agenda de atividades cem por cento preenchida? Será que algum tempo “sem fazer nada” também não é importante para as crianças?

Pense comigo: qual foi a última vez que você ficou sem ter o que fazer? Isso mesmo, sem fazer absolutamente nada. Para muitos de nós, essa é uma tarefa impossível, não conseguimos sequer lembrar de quando tivemos um pequeno ócio. Isso é fruto de nosso estilo de vida corrido, em que agendamos tudo e, muitas vezes, vivemos no “piloto automático”. E sabe o que é pior? Nós, pais, naturalmente vamos passando esse estilo de vida para os filhos, em que o “não fazer nada” vem sendo subtraído da vida deles também.

Nos dias de hoje, as pessoas querem, acima de tudo, que seus filhos tenham sucesso. Como não sabem muito bem a “fórmula mágica” para obtê-lo, preenchem a agenda das crianças com diversas atividades diárias, além da escola, como balé, esportes, robótica, inglês e/ou matriculando-as no turno integral. Um dado curioso é que, se perguntarmos aos CEOs de grandes empresas, duas das características mais importantes que eles consideram num colaborador, certamente eles dirão que é a capacidade de ser criativo e de resolver problemas.

Em outras palavras, as crianças têm mais atividades do que conseguem dar conta, mais brinquedos do que conseguem administrar, mais livros do que conseguem ler, mais desenhos para assistir na TV do que conseguem acompanhar, e um celular com banda larga (potente) para passar horas e horas assistindo aos canais do Youtube.

Os psicólogos, em geral, afirmam que as crianças de hoje revelam certa dificuldade de ficar ociosas em razão de tantas atribuições que enfrentam no dia a dia. Por isso, vez por outra, elas ficam perguntando o que há para fazer ou reclamando de tédio. No período de férias, tais atividades deveriam ser diminuídas ou mesmo suspendidas, pois sabemos que uma criança com muitas tarefas fica irritada, cansada, às vezes com dificuldade para dormir, não sendo raros os casos em que desenvolve até ansiedade. Para Alda Azevedo, Presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, “a criança com excesso de atividades pode se tornar estressada e hiperativa, apresentar dificuldade para dormir, desenvolver ansiedade e até mesmo depressão, doenças de adultos que estão atingindo as crianças cada vez mais cedo”, explica.

E por que é importante falar sobre o ócio na infância? Pelo simples fato de que não fazer nada leva a pensamentos reflexivos, ativa a imaginação, expande a realidade. Quando permitimos que nossos filhos escolham o que fazer no seu tempo livre e inventem a partir do que não está estabelecido, abrimos espaço para a criatividade, para a escolha e a elaboração do que será vivenciado por eles. Eles poderão se divertir com brincadeiras (criar suas regras ou uma nova brincadeira), jogos e passatempos que satisfaçam suas necessidades momentâneas, construir ou imaginar cenários ou, simplesmente, colocar-se em estado contemplativo, olhando para o teto ou para o firmamento por algum tempo, parados, ou mesmo imaginando outras realidades, se assim quiserem.

Para o desenvolvimento das crianças, é essencial prover espaço para a inventividade, e isso se opõe a uma agenda cheia de compromissos. Precisamos diminuir o ritmo, tanto o nosso quanto o das crianças. Então, aproveite o mês de julho para desacelerar e permita a si e aos filhos alguns períodos sem atividade. O tempo livre é importante e ajuda o ser humano a ser mais criativo. É bom lembrar que, nas férias, a rotina pode ser quebrada. Não é aconselhável dormir muito tarde, mas pode-se dormir um pouco mais, por exemplo; pode-se criar uma nova rotina e aproveitar esse tempo para brincar com mais liberdade. Quem não lembra com carinho do quintal de uma avó ou de um tio? Das brincadeiras de rua com os primos ou vizinhos? Recordo-me de uma brincadeira que fazia com meus pais e minha irmã, quando viajávamos de carro: tínhamos de nomear o maior número de coisas, começando por uma determinada letra, ou completar uma sequência de cores, animais, objetos, etc. O que está por trás dessas situações? A criatividade, que era usada livremente, sem dependermos de telas eletrônicas para uma boa diversão.

Que tal dar o primeiro passo? Isso mesmo, também me coloco nesse desafio, pois peguei-me, semana passada, planejando as férias de Gabriel e Vitória por completo. E foi nesse momento que comecei a refletir sobre esse tema. Assim, vamos às dicas:

  • Nada de virar “pais-helicópteros” – aqueles que ficam sobrevoando e dando instruções o tempo inteiro à criança. Na hora da brincadeira autônoma, deixe seu filho livre, sem coordenadas. É importante que ele tome decisões, aprenda a descobrir suas preferências e a resolver seus pequenos conflitos. 
  • Nada de TV e de outros dispositivos eletrônicos, incluindo o celular. A ideia é que esse tempo de ócio não tenha a interferência de aparelhos para que seja mais criativo e proveitoso para a criança. 
  • Crie em sua casa um verdadeiro “baú do tesouro”, ou seja, um espaço com brinquedos não estruturados: são objetos do cotidiano que vão servir de meios para a construção de histórias, como a panela que vira o chapéu de pirata, a colher que vai servir como varinha de condão, entre outros. São coisas simples, mas que, ressignificadas, ajudarão as crianças a explorar o faz de conta.
  • Ofereça atividades ao ar livre. Infelizmente, nem todas as crianças têm possibilidade de conhecer os quintais saudosos a que tivemos acesso, mas isso não impede de levá-las a um parque, de fazerem piqueniques ou de caminharem descalças na praia.

Portanto, aproveitem as férias e possibilitem muitos “nadas” aos filhos, pois, às vezes, a melhor forma de aproveitar o tempo é vivenciar atividades que não carecem de comandos ou de planejamento: contemplar o céu, sentir o tapete macio, fechar os olhos e ouvir os sons ao redor. É assim que descobrimos pequenas alegrias em cada momento de nossa vida: deixando a cabeça livre para termos grandes ideias e exitosos projetos. Hoje e no futuro.

Regina Santos Silva

Orientadora Pedagógica do Saber Viver



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