Paternidade Participativa

O que mudou nas últimas décadas na relação entre pais e filhos?
Até a década de setenta, existia uma separação muito nítida entre homens e mulheres no que tange ao exercício dos papéis parentais no interior das relações familiares. As mães atuavam no domínio privado, cabendo a elas os afazeres da casa, a criação dos filhos e os cuidados com doentes e idosos. Mães integralmente dedicadas aos rebentos, responsáveis pela alimentação, educação e saúde. Consideradas, também, o esteio afetivo da casa, responsáveis pela paz e harmonia familiar. Aconselhavam os filhos, conversavam com o marido e mediavam os conflitos intrafamiliares. Enfim, os papéis tradicionais de esposa e mãe. Cabiam aos homens, por sua vez, os papéis de provedores e protetores da família, ou seja, assumir a responsabilidade de prover o sustento material e assegurar a proteção física e moral de todos. Os pais eram as principais figuras de autoridade da família, a obediência era baseada no medo e nos castigos físicos. Alguns pais eram frios e distantes emocionalmente dos rebentos, tinham medo da perda dessa autoridade com a aproximação e trocas afetivas. A atividade paterna se restringia à recreação e às atividades lúdicas com os rebentos: brincadeiras, jogos e passeios. Com a modernização da família, as tarefas de cuidar e educar os rebentos passaram a ser compartilhadas pelo casal. As exigências das mulheres por equidade de gênero na vida social e na família pressionaram os homens a mudarem os papeis masculinos, aumentando a responsabilidade no cuidado da prole e nas tarefas domésticas. Os homens se tornaram paulatinamente mais presentes na vida cotidiana da família assumindo, em conjunto com a esposa, as exigências da vida privada. Denominamos de paternidade participativa quando os pais vivenciam uma relação próxima e ativa no cuidado e na educação de seus filhos. O exercício dessa paternidade vem ajudando a romper com os modelos tradicionais de masculinidade.

 

O que é paternidade participativa?
Os homens compreenderam que ser pai não é simplesmente ser ajudante da mãe, coadjuvante no processo de criação das novas gerações. A paternidade implica em assumir responsabilidades no cuidado das crianças em suas demandas diárias: higiene, alimentação e educação. Procuraram, então, ter disponibilidade física e psicológica para atender as solicitações e necessidades dos filhos. Essa disponibilidade não ocorreu apenas por obrigação ou pressão da esposa, mas por satisfação e prazer no exercício dessa paternidade ativa. Faz-se necessário destacar que essa paternidade participativa pode ser vivida por pais divorciados que ficam com a guarda dos filhos, homens solteiros que adotam crianças e casais homoaafetivos. Enfim, a paternidade participativa pode ser identificada em homens que consideram que as tarefas relacionadas com a criação dos rebentos são tão importantes quanto as exigências da vida profissional.

 

Quais os ganhos e os benefícios para os homens no exercício dessa paternidade participativa?
Tradicionalmente, os homens viveram predominantemente em domínios competitivos e experimentaram poucos momentos de engajamento familiar. Essa nova paternidade tem contribuído para tornar os homens mais próximos do universo dos afetos e do cuidado. Essa experiência de envolvimento afetivo no cuidado filial tem ajudado a despertar nos homens a sensibilidade, a ternura e o carinho. O convívio mais próximo com a prole fortalece os laços paterno-filiais e aumenta a intimidade entre pais e filhos.

 

Existem benefícios dessa paternidade participativa para as mulheres/mães?
Existe sim. No contexto atual, as mulheres têm dificuldades de conciliar sozinhas as demandas de cuidado e de educação de crianças e jovens com o cumprimento das obrigações profissionais. Antes desse envolvimento masculino, a carreira feminina era obstaculizada pela sobrecarga de trabalho e excesso de responsabilidade decorrente da dupla jornada de trabalho. As mulheres viviam num ritmo de vida alucinante e exaustivo, divididas entre as atividades laborais, os estudos e a vida familiar. Muitas vezes, essa sobrecarga de obrigações adoecia as mulheres e/ou deteriorava a sua qualidade de vida. Essa corresponsabilidade tem contribuído decisivamente para o crescimento profissional e a emancipação econômica das mulheres. No consultório, tenho observado que maridos mais cúmplices na criação dos rebentos permitem que as mulheres se dediquem plenamente à sua carreira profissional. Desse modo, a paternidade participativa melhorou a qualidade de vida das mulheres e os indicadores relacionados com a saúde feminina.

 

Quais as dificuldades enfrentadas pelos pais para assumir essa paternidade participativa?
Alguns homens não conseguem abrir mão de privilégios históricos de gênero. Uma vez que a tarefa de cuidar da prole esteve historicamente sob a responsabilidade feminina, evitam ao máximo o envolvimento com mundo privado da família, desresponsabilizando-se do cuidado e educação dos filhos. Isto é, nunca foram e nem desejam ser corresponsáveis pelo espaço doméstico. Por outro lado, o exercício da paternidade participativa depende, além do desejo do pai, da “autorização” da mãe. Algumas mulheres centralizam e monopolizam esse cuidado, figurando como necessárias e insubstituíveis. O espaço doméstico é também lugar de poder! Dificultam a entrada dos pais nessa relação e justificam com a incapacidade deles em cuidar dos rebentos. A mãe não é a única detentora da habilidade de cuidar e de educar os filhos. Alguns homens se mantêm afastados, em suas zonas de conforto. Pais que desejam assumir essa paternidade participativa precisam abandonar essa zona de conforto, participando ativamente no cuidado e educação da prole. Essa nova postura assumida pelo pai acarreta mudanças nas relações paterno-filiais, desnaturalizando os lugares e os papéis tradicionais de gênero no casamento e na família. Para finalizar, conforme visto, a paternidade participativa não representa ganhos e benefícios somente para a relação entre pais e filhos, mas se estendem para toda a família.

 

Eduardo Fonseca
Psicólogo Clínico e professor do curso de Psicologia da FAFIRE
Pai do aluno Eduardo Júnior (6º ano)
Contato:
edufafire@gmail.com



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