Poéticas do autoconhecimento

Cada ser possui seu tempo dentro do tempo. A caminhada é permeada por diversas metamorfoses próprias do viver. Em cada momento, uma vida é preenchida de memória. Nosso tempo, nossa memória, nossa vida são ciclos que se fecharão. E o que nós deixaremos ou estamos a construir para os outros que virão? Como deixar um legado se não conhecemos nosso próprio tempo?

Durante um longo tempo, o ser humano e a ciência se detiveram a conhecer o outro. Mas é interessante perceber que essa vontade do outro nada mais é do que uma necessidade de autoconhecimento. As realidades dos outros são semelhantes às minhas. Isso é possível porque o outro, em algum momento/tempo, se propôs a deixar legado. Este legado é resultado do exercício do autoconhecimento, pois o indivíduo, em suas práticas diárias, seus estudos, seus trabalhos, seus momentos de lazer e recreação, emprega uma ação ou ideia singular do seu Eu. E são nesses momentos que entendemos a importância de estar no mundo.

Autoconhecimento é, também, um exercício poético, visto que a vida é permeada por alegrias e tristezas. Cabe a nós perceber a poética da vida e compreender como estamos interagindo com essas mudanças do viver. Pensar poeticamente é descobrir-se no tempo.

Na arte, o autoconhecimento está ligado às poéticas presentes nas obras dos artistas. Quando você faz arte, sente-se perpassado por suas histórias, ideias, pesquisas, descobertas, memórias. Tudo isso se reverbera na sua sensibilidade. Num processo criativo, o criador se afeta sensivelmente. O sentir é uma função primária do humano, tais como olhar, cheirar, degustar, escutar. Porém, ser sensível é potencializá-las conscientemente em prol de um viver criativo. É uma postura saudável que vai permitir novas percepções. Tudo isso interfere na realização do trabalho artístico e da criação de arte como conhecimento. Quando alguém se propõe a conhecer-se através da arte, está propondo elevar seu olhar poético consciente sobre o mundo.

Autoconhecimento na arte não é um exercício egocêntrico. É, sim, um exercício de aproximação consciente entre o ser e o mundo. Dessa forma, o artista/cientista deixa como legado sua vida e não somente uma tela ou escultura. Sua arte/ciência torna-se um benefício atemporal. A arte é um amar partilhado entre tempos e seres; é uma descoberta do autoconhecimento para conhecer o outro.

 

(Rodrigo Silva, professor de Arte do Colégio Saber Viver)

 



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